Dançando com a Alma (Dancing with the Soul)
Crianças e adolescentes também se juntam aos adultos para curtir o rítmo contagiante da Black Music. Uma das preocupações dos organizadores é manter o clima de família no ambiente. Eles ficam atentos para coibir possíveis brigas, tumultos ou uso de drogas. Nunca houve uma única ocorrência. O que impera no evento é a paz e muita música. Um CD com "Brown" começou a tocar e os amantes da Soul Music iniciaram a sua dança contagiante, desta vez na calçada e não na rua. É como resumiu um dos dançarinos: "Com ou sem D.J., tudo bem! O quarteirão do soul tem 'alma' própria!!!".
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1º de setembro de 2009
Fotodocumentário e ensaio fotográfico por Walter Silva*
Dançando com a alma. Sim, é um clichê! Mas depois de frequentar e fotografar o "Quarteirão do Soul" durante alguns sábados procurei uma expressão que fosse capaz de sintetizar a emoção, a energia e a vida manifestada pelos seus participantes, principalmente pelos seus exímios (e caracterizados) dançarinos. Não tenho dúvida. Eles realmente dançam com a alma!
O Quarteirão do Soul é um evento dançante que existe há cinco anos. Acontece todo sábado à tarde, ao ar livre, em plena rua Goitacazes no centro de Belo Horizonte (Minas Gerais, Brasil). Tem início por volta de três horas da tarde e vai até oito horas da noite. São tocadas Soul Musics, rhythm and blues e funky dos anos 70, em especial os hits dançantes de James Brown. Em resumo, é uma grande festa!
Para mim foi prazeroso produzir este fotodocumentário e o ensaio fotográfico que você verá logo abaixo. Também sou da geração que escutava o programa de rádio "Rítmos da noite" que ia ao ar nos anos setenta e oitenta pela Rádio Cultura AM 830 Khz, bem tarde da noite, ou seja... para aquela época, vinte e duas horas!!!
O programa tocava o melhor da Soul Music: Michael Jackson, James Brown, Brass Construction (o baixo pulsante de 'Get up and to get down' é um sopro de vida mesmo para quem não é fã deste gênero musical), Commodores, Aretha Franklin, Chuck Brown, Jimmy Bo Horne, Kc and the Sunshine Band e outros.
O "Quarteirão" - como é carinhosamente chamado pelos seus frequentadores - é um espetáculo popular com muita música e muita alegria, num cenário atípico (no meio da rua) e com personagens notáveis. É um prazer dividir com você as imagens e as informações deste evento que a cada ano tem atraído mais e mais pessoas, até mesmo turistas. Eu espero que você goste!
*Walter Silva - fotojornalista e editor do Clicando a Vida.
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Duas horas da tarde. O comércio fecha as portas. O sol está tímido. A preguiça do sábado começa a chegar à rua Goitacazes, entre rua Curitiba e rua São Paulo, próximo ao Mercado Central no hipercentro de Belo Horizonte.
O lavador de carros Geraldo Antônio dos Santos (51 anos), mais conhecido como "Geraldinho", termina a limpeza em um veículo. Em alguns minutos ele irá se transformar num célebre D.J. do Quarteirão do Soul. Tudo começou em abril de 2004 quando alguns amigos foram buscar um CD com músicas do James Brown que foi encomendado a Geraldinho. Um desses amigos... 
... o "Abelha" (na foto acima, sendo apontado pelo D.J. Valdir), resolveu testar o CD no seu automóvel Caravan ano 1986 que possuia um sistema de som potente. Abriu a porta traseira do veículo em plena rua Goitacazes e todos os amigos começaram a dançar ali mesmo. Logo dezenas de pessoas - também amantes da música negra - começaram a se aglomerar no local. O número de frequentadores foi crescendo cada vez mais até o movimento ser batizado de "Quarteirão do Soul".
Nos dois primeiros sábados do mês o Quarteirão do Soul é animado pelo D.J. Abelha e pelo D.J. Valdir. Quem comanda a festa popular nos dois últimos sábados é o D.J. Joseph (na foto acima, no primeiro plano) e o D.J. Geraldinho, um dos fundadores do evento. 
Voluntários finalizam a preparação da "pista de dança" colocando velhos carpetes sobre o asfalto para melhor conforto e performance dos dançarinos. O evento é frequentado principalmente - mas não somente - por amantes da Soul Music dos anos setenta, pessoas na faixa dos quarenta ao cinquenta anos de idade.
Por volta de três horas da tarde o som começa a rolar. Até o sol desperta de sua preguiça e volta a brilhar com mais intensidade, iluminando a rua Goitacazes com uma cor dourada. É um efeito simbólico da vida que pulsa no Quarteirão do Soul.
Quem passa pelo local fica surpreso ao ver pessoas dançando de forma tão desinibida bem no meio da rua.
O visual típico dos anos setenta é uma marca do Quarteirão do Soul. Esporte fino, terno, sapato bicolor...
... chapéu, medalhão, vestidos acima do joelho, maquiagem e peruca Black Power. Mas há quem prefira...
... o modo despojado e deixa os chinelos de lado para se entregar de corpo e - principalmente - alma a música negra.
Alguns frequentadores do evento criam personagens. É o caso da artesã Tânia Rodrigues (43 anos), conhecida no evento como "Dama do Soul". Todo sábado ela comparece com um figurino diferente e nos conta que o Quarteirão é também um lugar para rever velhos amigos amantes do Soul. "Aqui é a nossa casa e fico ansiosa para chegar sábado. É uma verdadeira terapia!", explica.
A Dama do Soul é admirada pelo seu visual e pela sua performance como dançarina. "Fico muito feliz por ter caído nas graças do povo. Eles pedem para tirar fotos comigo e isto é muito gratificante. Ás vezes me sinto uma pop star", revela Tânia que apaixonou-se pela Black Music quando tinha 12 anos de idade. Mas faz questão de deixar claro que "... o quarteirão é antes de tudo um espaço democrático. É só chegar e começar a dançar. No quarteirão do soul qualquer um pode ser a estrela!". 
Com um visual extravagante e personagem frequente do Quarteirão do Soul, Paulo Oliveira dos Santos (37 anos) trabalha como divulgador e aguarda com muita expectativa a chegada do sábado. Sua marca é criar um estilo de dança diferente a cada apresentação. "Sempre me perguntam que estilo estou dançando. Digo simplesmente que é 'black'", esclarece Paulo.

E por falar em música... haja fôlego! A tarde vai avançando e a animação toma conta de vez do espaço ao ar livre. O sol do meio da tarde ajuda a aquecer ainda mais os dançarinos. 
Tribuna de honra. Moradores dos prédios da rua Goitacazes, vizinhos ao Quarteirão do Soul, descem de seus apartamentos e têm um lugar especial ao lado dos D.Js. Também como política da boa vizinhança os organizadores se comprometem a terminar o evento pontualmente às oito horas da noite.
Sem drogas. Na festa dançante ao ar livre o que vale é uma boa cerveja acompanhada de alguns petiscos.
Será ele mesmo? James Brown em carne e osso? Será que o ídolo da Soul Music falecido em 25 de dezembro de 2006 materializa aos sábados à tarde só para ir ao Quarteirão do Soul? Não duvide. 
E por falar em James Brown, Anísio Resende (50 anos) dança usando uma camiseta que homenagea o ídolo da Soul Music. Anísio nos conta que sua esposa trabalhava próximo ao Quarteirão e lhe contou sobre o evento. A princípio não levou a sério, mas quando foi ver de perto apaixonou-se na mesma hora. "Curti a música negra por volta dos meus 14 anos e quando vou ao quarteirão volto ao meu tempo de adolescente. É incrível! Até a minha saúde melhorou quando passei a dançar aqui. E a auto-estima da gente vai lá pra cima". Podemos entender o que Anísio quer dizer, porque... 
... conforme revela a foto acima, o Soul te deixa "leve"!!!
O resgate da juventude e sua consequente irreverência fazem parte do clima saudável do Quarteirão do Soul. 
Além de James Brown, os frequentadores também cultuam outros ídolos. Como exemplo, Michael Jackson foi homenageado no primeiro sábado após a sua morte ocorrida em 25 de junho deste ano. 
O evento atrai também pessoas comuns que querem tirar uma foto para guardar de lembrança, fotógrafos profissionais e vídeomakers. Todos querem registrar ou documentar este movimento cultural que...
... harmoniosamente reúne pessoas de todas as raças, idades e classes sócio-econômicas.
É bom lembrar que nos anos setenta a chamada Black Music era alvo de preconceito em todo o mundo. Admiradores deste tipo de música eram rotulados de vagabundos ou mesmo "marginais". Para alguns dos integrantes do Quarteirão do Soul...
... dançar seu estilo de música preferido ao ar livre é uma espécie de "saudável vingança" e um orgulho da consciência negra.
E o amor também está sempre em alta no Quarteirão. Acima de todas as diferenças.
A noite chega. E os dançarinos mais tímidos e aqueles que até então estavam com vergonha de entrar no rítmo das músicas negras, caem de vez na "pista de dança".
Afinal de contas, "... no quarteirão do soul qualquer um pode ser a estrela!".
Hoje não tem D.J? Tudo bem!
Adendo por Walter Silva
No sábado anterior a publicação deste fotodocumentário estive mais uma vez no Quarteirão do Soul. Não tinha D.Js com o sistema de som mais potente. Como o mês de agosto teve um sábado a mais, os organizadores decidiram não realizar o evento para que a participação das equipes ficasse equilibrada (dois sábados para cada uma). Mas algo surpreendente aconteceu! Alguém apareceu com um micro-system e um DVD player que também toca CDs.
Veja abaixo as fotos do Quarteirão do Soul tendo ao fundo a música "I feel good" com James Brown. A apresentação está no formato "ensaio fotográfico". Dependendo da velocidade de sua conexão poderá haver uma certa demora para carregar porque a exibição será em HD (Alta definição). O ensaio também é melhor visto em tela cheia (segundo botão da direita para a esquerda na barra inferior do YouTube).
Black Soul em Contagem: Bangalô Cultural (clique na imagem abaixo)
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Todas as fotos: Walter Silva
Texto e edição: Walter Silva
Edição do ensaio fotográfico: Walter Silva
Obrigado pela sua visita!
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